A Vitamina D na Medicina

Nada tão antigo em medicina quanto prescrever ou recomendar a vitamina D, mas nada tão moderno quanto a obrigatoriedade de prescrever ou recomendar a vitamina D. Classicamente utilizada para combater o raquitismo tanto pela sua capacidade de elevar a absorção do cálcio dietético no intestino, quanto sua capacidade de reabsorvê-lo nos rins. Talvez o leite acompanhe um indivíduo por toda a sua vida – é o único animal que ingere leite na vida adulta- por uma fixação emotiva e de ternas lembranças da voz materna dizendo “menino (a) para crescer e ossos fortes tem que tomar leite todo dia”. Como se comportaria esta mãe se soubesse que modernamente se sabe que a vitamina D tem dezenas de funções benéficas no organismo humano.

Recentes publicações identificaram uma associação inversa da circulante 25 hidroxi vitamina D (25OHD) com riscos de morte por doença cardiovascular, vários tipos de câncer, função neurológica, desempenho músculo-esquelético e doenças autoimunes como a Diabete Mellitus tipo I e Esclerose Múltipla. Além disso, estudos observacionais indicam que a suplementação da vitamina D reduz significativamente diversas causas de mortalidade entre adultos idosos. O termo insuficiência de vitamina D tem sido usado para descrever baixos níveis da 25(OH)D. Concentrações abaixo de 8ng/mL (20 nmol/L) é a forma mais severa de deficiência de  vitamina D, resultando em desmineralização óssea grave por elevação do PTH e,  hipocalcemia acentuada. Sua carência está implicada com maiores taxas de suicídio, depressão, déficit cognitivo, distúrbios neurológicos e maior risco para câncer. Surpreendentemente, 88% da população mundial apresenta deficiência da vitamina D (Bendik, 2014).

A vitamina D em medicina sempre foi preconizada para saúde dos ossos e dos dentes e, rotineiramente prescrita, tanto para crianças quanto para mulheres menopausadas, como prevenção e tratamento da osteoporose por sua importante ação na absorção do cálcio dietético. Nas últimas décadas foram descobertas várias ações da vitamina D além de seu papel no metabolismo do cálcio o que ampliou em demasia suas indicações tanto para prevenção quanto para controle e tratamento de diversas doenças e com a perspectiva de grande influência sobre a saúde humana. A descoberta da presença do receptor da vitamina D (VDR) e de sua enzima ativadora 1-alfa- hidroxilase (CYP27B1) em muitos tipos celulares, além daqueles envolvidos no metabolismo ósseo, está de acordo com achados que concentrações subótimas de vitamina D são implicadas em elevação da mortalidade tanto pelo seu efeito anti-inflamatório como de moduladora imune, desde que a ativação da vitamina também ocorre em células referidas a imunologia, tanto na imunidade inata quanto na adaptativa. Provavelmente no futuro novas implicações para a saúde serão descobertas em relação a vitamina D, pelo menos pelo fato de já terem sido descobertos mais de 900 gens sob seu controle.  A deficiência da vitamina D pode estar associada a polimofismos da proteína ligadora da vitamina D, ao receptor celular ou ao gene da alfa-1-hidroxilase.

Apesar de ser sintetizado no corpo humano este hormônio ainda é denominado de vitamina D na literatura médica. Em parte por tradição, mas também, porque indivíduos da raça negra e, em menor extensão os de raça amarela, devem incluir na dieta fontes de ergocalciferol desde que a síntese da vitamina D por irradiação solar na pele negra não é suficiente para as necessidades básicas do corpo. Indivíduos da raça branca, ao se exporem de forma adequada ao sol, podem produzir vitamina D suficiente. Todavia, a carência endêmica de vitamina D em países tropicais tem obrigado uma revisão desde conceito. A dependência de um único valor de corte para definir a deficiência da vitamina D ou insuficiência é problemática por causa da grande variabilidade individual dos efeitos funcionais da vitamina. Tem havido controvérsias nas recomendações aos pacientes quanto aos valores plasmáticos da 25(OH)D, o mais acurado marcador do status da vitamina D.

O instituto de Medicina dos Estados Unidos (IOM) em 1997 surpreendeu os especialistas ao recomendar 20ng/mL como valor suficiente para manter saúde óssea, o que ocasionou a redução das doses diárias recomendadas ao público americano. No entanto, vários argumentos são favoráveis para 30 ng/mL como valor mínimo saudável para a saúde do esqueleto. Inicialmente pode-se citar um estudo realizado no Reino Unido (Trivedi, 2003) que ao objetivar concentrações maiores de 25(OH)D obteve 33% de redução em fraturas osteoporóticas. Os autores Bischoff-Ferrari (2009) demonstraram que não ocorre redução de fraturas em níveis inferiores a 30 e até a 40 ng/mL de 25(OH)D. Além disso, a recomendação do IOM que a dose de 600 UI/dia para indivíduos acima de 70 anos seria suficiente para alcançar níveis adequados da vitamina esbarra na constatação de que para cada 100 UI de vitamina D por dia obtém-se elevação de 1ng/mL na concentração de 25(OH)D, no entanto alguns ensaios indicam apenas elevação de 0.7 ng/mL para cada 100 UI.  As recomendações diárias entre as várias sociedades médicas diferem, assim como os níveis de segurança. A IOM recomenda de 400 a 800 UI dia para crianças e idosos para manter níveis de 20 ng/mL. A Sociedade de Endocrinologia recomenda de 400 a 1000 UI para crianças e de 1500 a 2000 UI dia para a fim de manter níveis de 30ng/mL. Outras recomendações sugerem níveis adequados entre 36 a 48 ng/mL (Bischoff-Ferrari, 2006).

 

FATORES DE RISCO PARA DEFICIÊNCIA DE VITAMINA D

  • Prematuros
  • Pigmentação escura
  • Insuficiente exposição ao sol
  • Obesidade
  • Má absorção
  • Idade avançada

 

MÚLTIPLAS AÇÕES DA 1.25 (OH)2 D

  • Inibe síntese da renina
  • Contratilidade miocárdica
  • Crescimento capilar
  • Diabete Mellitus
  • Eleva produção de insulina
  • Sistema reprodutivo
  • Doença cardiovascular
  • Síndrome metabólica

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 + vinte =